sexta-feira, 10 de maio de 2013

Big Data ou Big Brother?

Estava lendo hoje o relatório Big Data, Big Impact: New Possibilities for International Development, publicado em 2012 pelo Fórum Econômico Mundial, de Davos.

Nele, argumenta-se que os dados provenientes de telefones celulares tem interesse especial, porque, para muitas pessoas de baixa renda, esta é a sua única forma de tecnologia interativa e, ao mesmo tempo, com ela é mais fácil de identificar os indivíduos aos dados. Com isso, esses dados poderiam pintar um quadro sobre as necessidades e comportamentos dos usuários individuais, em vez de simplesmente sobre a população como um todo.

Esse documento cita também uma pesquisa, segundo a qual, quando os operadores de telefonia móvel observam uma redução do tempo de antena em uma determinada região, isso tende a indicar uma perda de renda nessa população muito antes que essa informação apareça nos indicadores oficiais.

Em outra pesquisa citada, conversas relacionadas com a alimentação no Twitter não só mostraram correlações muito fortes com a inflação dos preços dos alimentos, como puderam indicar onde e como as pessoas já estavam mudando seu comportamento em função disso.

Segundo Kikpatric, no auge da crise financeira global de 2009, o Secretário-Geral das Nações Unidas criou a iniciativa Global Pulse, como um laboratório de pesquisa de desenvolvimento, para descobrir se o Big Data e sua análise em tempo real poderiam ajudar a tornar a formulação de políticas mais ágil e eficaz.

O relatório Big Data afirma que a Global Pulse está se envolvendo ativamente no que seu diretor, Robert Kirkpatrick, chama de ‘filantropia de dados’, onde empresas parceiras são incentivadas a compartilhar dados anonimizados para uso do setor público para proteger as populações vulneráveis.

Confesso que me assustei um pouco com a conclusão do relatório:

"Apesar dos desafios [da falta de especialistas e resistência das empresas em compartilhar os dados] e riscos [com privacidade e segurança], as oportunidades disponíveis para melhor servir as pessoas nos mercados emergentes devem compensar esses riscos" [grifo meu].

E mais ainda quando li que Kikrpatric afirma que

"Big Data é uma matéria prima pública, e devemos trabalhar juntos para encontrar maneiras de aproveitá-la para um massivo impacto social, tanto de forma segura quanto responsável. Para que isso aconteça, a ‘filantropia de dados’ tem que se tornar uma prioridade do setor privado" [grifo meu].

Ou seja, devemos permitir -- compulsoriamente até, se for o caso -- a abertura de nossos dados pessoais de identificação e comunicação, abrir mão da nossa privacidade e segurança, porque 'eles', o Grande Irmão, garantem que vai ser bom para todos nós!



Veja também meu post O que a Ciência pode aprender com o Google?