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segunda-feira, 2 de junho de 2014

Comparando temas escolares no Google Trends

Algumas correlações do site The Web Search Correlations Database, encontradas com o Google Correlate, exibem um gráfico característico, com um padrão semelhante ao que Mohebbi et al. (2011) observaram no termo de busca 'ribossomo': "a série de tempo para estas consultas apresentam picos no Outono e Primavera, quedas acentuadas durante a Ação de Graças e Natal e uma profunda queda no verão", o que os levou a argumentar que "isso reflete o ano letivo nos Estados Unidos e sugere que as consultas estão sendo conduzidos por classes escolares". Nós categorizamo-las naquele site como "temas escolares" (school topics).

Algumas delas foram "ribossomo', 'magnetismo','polarização' e 'equações diferenciais'. Usamos, então, o Google Trends para comparar os seus gráficos ao longo do tempo:

De fato, observa-se semelhança na periodicidade nas curvas do gráfico acima, o que parece corroborar a hipótese acima de Mohebbi et al. (2011).

Em outro post já havia feito uma comparação deste tipo entre os tópicos 'Química', 'Matemática', 'Biologia' e 'Física' e encontrado uma periodicidade semelhante, correspondente ao nosso calendário escolar.

Vale lembrar que nesse post também havia observado uma tendência de queda nas curvas dos gráficos e aventei as hipóteses de indicarem uma queda no interesse pelos estudos ou pelo próprio Google, hipóteses que foram descartadas numa atualização a esse post em que refiro à interpretação de Baram-Tsabari, Ayelet & Segev, Elad (2009).

Referências

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

colóquio no Big Data Festival mundial

Para quem não sabe, está ocorrendo o Big Data Festival, que reúne palestras, cursos, etc. sobre o tema ao redor do mundo.

Dentro do calendário de eventos desse festival , nesta quarta-feira, dia 20 de novembro, vou apresentar o colóquio 'Big Data: Uma proposta didática para seu uso no Ensino de Física' às 18h30 no auditório do prédio 1 da Ubra - Universidade Luterana do Brasil, Campus Canoas.

Tanto quanto eu pude verificar, será o único evento na América do Sul!

Estão todos convidados.

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Big Data e Google Trends indicam queda no interesse pelos estudos ou pelo próprio Google?

Voltando à ferramenta de Big Data Google Trends que mencionei rapidamente num post anterior, ao contrário da Google Correlate que mencionei no post passado, nesta se introduz um termo de busca e ela retorna o gráfico temporal da frequência da consulta desse termo no Google.

Assim, por exemplo, introduzindo o termo de pesquisa 'Matemática' e restringindo as buscas ao Brasil, obtive o gráfico abaixo.
Gráfico da frequência de buscas do termo 'Matemática' no Brasil no Google


Inicialmente, nota-se uma clara tendência de redução de buscas ao longo do tempo, de 2004 até hoje, não sei se resultando de menor utilização do Google para pesquisas sobre Matemática ou de menor interesse em Matemática. O trecho pontilhado no extremo direito é uma previsão para 2014 realizada pelo Google Trends por extrapolação.

Em seguida, nota-se um padrão de variação anual nas buscas:
  • um máximo de buscas em março de cada ano, talvez devido ao início do ano letivo;
  • um máximo menor em junho, talvez devido às provas de fim de semestre;
  • uma acentuada queda em julho, certamente devida às férias do meio do ano;
  • um patamar elevado em agosto-setembro, possivelmente devido ao retorno do segundo semestre;
  • uma queda em outubro;
  • um novo pico em novembro, talvez devido às provas de fim de ano e, finalmente,
  • um acentuado mínimo em janeiro, certamente devido às férias do final do ano.

Eu  havia feito uma pesquisa semelhante com o termo 'Física', obtendo o gráfico abaixo

Gráfico da frequência de buscas do termo 'Física' no Brasil no Google

mas tive dúvidas sobre o resultado, pois considerei que o gráfico poderia estar agregando resultados de outras pesquisas no Google. De fato, por exemplo,
  • o ponto marcado com 'A' inclui notícias sobre 'juros para pessoa física';
  • os pontos 'B', 'D' incluem notícias sobre 'Educação física'
  • os pontos 'E', 'G' e 'I' incluem notícias sobre 'atividade física', 'forma física', e 'integridade física';
  • etc.
enquanto o ponto 'C' fala de 'partícula mais veloz que a luz' e 'revolução na Física' e o ponto 'H' fala do 'Big Bang' e da 'Física Moderna'.

No entanto, após realizar a pesquisa acima para 'Matemática, observei o mesmo padrão de variação anual, como se vê no gráfico combinado abaixo, e concluí que, apesar de tudo, as buscas sobre 'Física' como conteúdo escolar deveriam estar predominando.

Gráfico combinado das frequências de buscas dos termo 'Física' (azul) e 'Matemática' (vermelho) no Brasil no Google

Para tirar a dúvida, realizei uma busca sobre 'língua portuguesa' e obtive o gráfico abaixo


Gráfico da frequência de buscas do termo 'língua portuguesa' no Brasil no Google

o qual é semelhante aos anteriores, tanto na tendência de redução de buscas ao longo do tempo, quanto no padrão de variação anual.

No entanto, as frequências de busca para 'língua portuguesa' são tão menores que um gráfico combinado, como o entre 'Matemática' e 'Física' acima, não é conveniente, como se vê do gráfico combinado abaixo, o qual inclui também as frequências de busca para 'Química' e 'Biologia'.
Gráfico combinado das frequências de buscas de vários termos no Brasil no Google
Contudo, continuo sem saber se o Google Trends está indicando uma queda no interesse pelos estudos ou pelo próprio Google.

Atualização (11 mar. 2014): Recentemente, encontrei uma possível explicação para essa queda no artigo: 'Just Google it! Exploring New Web-based Tools for Identifying Public Interest in Science and Pseudoscience', de Baram-Tsabari, Ayelet & Segev, Elad. Segundo os autores, "isto é provavelmente devido ao aumento geral de acesso e uso da Internet, que permite a uma ampla população menos instruída pesquisar na web via Google para fins cada vez mais diversos. Portanto, o volume de pesquisa para termos específicos diminui relativamente a todas as pesquisas realizadas utilizando o Google. [tradução minha]".

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Big Data (errado) na capa da VEJA desta semana

Como muitos já devem ter visto, a revista VEJA desta semana destaca o Big Data na capa.


Podia ser interessante, mas começa mal.

A figura estranha na capa é o norte-americano A. J. Jacobs.

Não sei de onde a VEJA tirou que ele é o "Mr. Big Data" (podem procurar no Google)!

Graças ao TinEye, descobri que essa imagem aparece no livro The Human Face of Big Data do fotógrafo Rick Smolan que reúne histórias e fotos relacionadas à 'Revolução da Big Data'.



O Jacobs foi incluído no livro por sua história de gostar de monitorar dezenas de suas variáveis corporais, tais como sua pulsação, pressão, qualidade de sono, passos dados, humor, etc.

Embora o Jacobs deva estar gerando grandes quantidades de dados, ele não está fazendo grandes análises deles e, por isso, não se qualifica para Big Data, e, certamente, muito menos para Mr. Big Data!

Para quem pretendia entender o que é o Big Data, a VEJA forneceu apenas a visão que se resume aos famosos três V's: grande Volume de dados, grande Velocidade possível e necessária para processá-los e sua Variedade, por provir de fontes diversas, tais como emails, blogs e redes sociais, arquivos de vídeo, etc.

Esta é a versão hype (oba-oba) e distorcida de que as grandes fabricantes (IBM, Microsoft, etc.) estão usando para vender equipamentos e serviços caríssimos para as empresas desavisadas que querem, com eles, ficarem 'modernas'.

A VEJA se esqueceu de falar dos outros dois V's igualmente importantes:
  • Veracidade: é necessário que os dados sejam autênticos e façam sentido (HURWITZ et al., 2013, p. 16);
  • Valor: é fundamental que os dados acrescentem valor ao seu utilizador (BEULKE, 2011), para que o enorme investimento necessário para o Big Data não seja uma despesa inútil.
Mas, pior, ainda, a VEJA também não discutiu uma série de mitos sobre o Big Data (ver, por exemplo, CRAWFORD, 2013), tais como

  • a falsa 'garantia' de que os dados serão anonimizados antes de serem processados, já que já foi demonstrado que geralmente é possível desanonimizar os dados por cruzá-los com outras bases de dados;
  • a falsa promessa de que o Big Data vai mudar nossas vidas para melhor, sabendo que muito do que se faz com ele é aperfeiçoar os mecanismos de nossa incitação ao consumo;
  • a falsa ideia de que Big Data é o futuro da Ciência, o quinto paradigma, de que "com dados suficientes, os números falam por si", descartando a necessidade de modelos, teorias, análise crítica, etc. Na verdade, os números, poucos ou muitos, nunca falam; é a mente humana que lhes dá significado.
    Big Data como um novo paradigma
    Fonte: (ZHU, 2013)
Um dos exemplos mais famosos é o Google Flu Trends (tendências da gripe), baseado no trabalho de Ginsberg et al. (2009), publicado na prestigiosa revista Nature, em que esses autores utilizaram-no para rastrear afecções semelhantes à gripe na população dos EUA.

No entanto, em 2013, o Google previu um surto de gripe com quase o dobro da intensidade reportada pelas autoridades norte-americanas. Vários pesquisadores sugerem que uma ampla cobertura da mídia sobre a severa temporada de gripe, incluindo uma declaração de emergência de saúde pública pelo estado de Nova York, teria provocado um grande aumento nas pesquisas relacionadas à gripe por pessoas que não estavam doentes e, com isso, causado um processo de realimentação nas previsões do Google (BUTLER, 2013).

Por outro lado, um exemplo bem sucedido de Big Data Science é o da recente identificação do Bóson de Higgs pelo LHC, o qual teve que utilizar um sistema Hadoop de computação distribuída, típico de Big Data, para gerenciar todos os dados.

Não vislumbro motivo para que a produção de dados digitais tenda a diminuir. Com isso, ainda que a moda do Big Data seja substituída pela next big thing, certamente a Ciência e a Economia necessitarão de algum tipo de análise dessas enormes massas de dados.

Da minha experiência, observo que produzir perguntas é um desafio maior do que obter respostas a elas com essas ferramentas do Big Data.

Aqui, acredito, é que os profissionais de Ciências são mais necessários.

Acredito, também, que, com ferramentas públicas e gratuitas, tais como o Microsoft GeoFlow, o Google Trends, o Google Correlate e outras que vierem a surgir em breve, os estudantes, futuros profissionais de Ciências, podem se familiarizar com os desafios científicos e éticos propostos pelo Big Data.

Referências

  • BEULKE, D. Big Data Impacts Data Management: The 5 Vs of Big Data [Blog post]. Disponível em: <http://davebeulke.com/big-data-impacts-data-management-the-five-vs-of-big-data/>. Acesso em: 7/5/2013.
  • BUTLER, D. When Google got flu wrong. Nature, v. 494, n. 7436, p. 155–156, 2013. Disponível em: <http://www.nature.com/news/when-google-got-flu-wrong-1.12413>. Acesso em: 16/5/2013.
  • CRAWFORD, K. Think Again: Big Data. Foreign Policy, 9. May. 2013. Disponível em: <http://www.foreignpolicy.com/articles/2013/05/09/think_again_big_data>. Acesso em: 13/5/2013.
  • GINSBERG, J.; MOHEBBI, M. H.; PATEL, R. S. et al. Detecting influenza epidemics using search engine query data. Nature, v. 457, n. 7232, p. 1012–4, 2009. Disponível em: <http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/19020500>. Acesso em: 28/4/2013.
  • HURWITZ, J.; NUGENT, A.; HALPER, F.; KAUFMAN, M. Big Data for Dummies. Hoboken, NJ: John Wiley & Sons, 2013.
  • ZHU, J. Big Data for Social Science Research: Hypes, Myths, and Realities. 21. Jan. 2013. Kowloon Tong, Hong Kong: City University of Hong Kong. Disponível em: <http://com.cityu.edu.hk/COMDOC/Seminar/ppt/2013/seminarPPT-2013-01-21.pdf>